Saturday, December 03, 2022

13 of the most stupid questions teachers have heard in the classroom.

                      


                           Encontrei na internet este artigo1, que traz junto o comentário:

There's no such thing as a stupid question... we're not so sure.

   A única referência é John Harrington. E o artigo traz umas “preciosidades”:  “Sabemos a velocidade da luz. Qual é a velocidade do escuro? ” Pois é, caro professor, como se responde a uma questão dessas? E esta outra: “o mundo é redondo como uma bola ou redondo como um prato? ” Esta questão – cá entre nós –, até poderia parecer pertinente para alguns, uma vez que já se levantou por aqui a teoria do terraplanismo. Mas minha experiência, como professora de pós-graduação, foi a de aprender muitas coisas com os alunos – e não só sobre a disciplina que eu ministrava. Aliás, os professores em geral admitem que aprendem com seus alunos e até consigo mesmos, quando administram aulas, pois se veem obrigados a estudar mais e a pensar melhor.

Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina2.

Só que algumas vezes já me deixaram sem resposta. Por exemplo, depois de me aposentar na Unicamp, dei aulas em um curso noturno, às sextas feiras e aos sábados, para alunos de pós-graduação com diferentes formações, perfis variados,  que trabalhavam para viver. Minha disciplina tinha o nome pomposo de Metodologia Científica, mas se propunha a ensinar algumas regras práticas para escrever uma tese. Usei, como texto, um livro elementar, que considerei adequado para o propósito do curso (3). Eu tentava dar alguma ideia de ciência, mas como? Pois um aluno com formação em Filosofia me perguntou porque eu não adotava como texto o livro de René Descartes (4)O Discurso sobre o Método”, um tratado filosófico e matemático publicado na França em 1637. Sem qualquer intenção de desmerecer a importância da obra do filósofo francês (Cogito, ergo sum), ainda dou tratos à bola: o que eu deveria responder a esse aluno?

Em outra ocasião e em outro curso, expliquei que, para levantar dados pessoalmente por meio de um questionário (5), não se deve intervir na resposta do participante da pesquisa, mas apenas anotar suas respostas, sem qualquer tipo de comentário. Se for o caso, o pesquisador pode colocar sua posição profissional para o respondente, mas só depois de gravar (ou anotar) todas as respostas. Claro que perguntar aos alunos que ingressam na faculdade porque escolheram determinado curso não trará respostas inusitadas. Mas elas fatalmente aparecerão se você fizer levantamentos no Brasil profundo. Então perguntei a alunos de Odontologia: “Que você diria, se ao perguntar a uma pessoa se escova os dentes diariamente, receber, como resposta: Não preciso, masco fumo”?  Fui espinafrada por um aluno grã-fino. Pois é, talvez ele não tenha entendido a minha argumentação, de que a resposta  do respondente tem de ser anotada, não importa quão absurda ela seja (ou talvez esse aluno tenha acordado exatamente quando eu dizia"não escovo os dentes, masco fumo). Mesmo assim, ele me fez perder o rebolado.

Aliás, explicar como se faz um questionário é sempre um problema. As pessoas acham que sabem tudo sobre o assunto. E foi discorrendo sobre as idas e vindas necessárias para construir um questionário que fui surpreendida pela pergunta – até certo ponto atrevida, embora equivocada – de um pós-graduando: Por que estamos discutindo “isso”? Em Medicina, todos os questionários já estão prontos! O que eu deveria responder? Se já está tudo pronto, de que interessa uma dissertação de mestrado, mesmo sendo a sua?

Foi também discorrendo sobre a dificuldade de levantar dados (sobre opiniões, ideias, sonhos, sentimentos dos entrevistados) que apontei duas formas de organizar as opções de resposta: a pesquisa quantitativa, que fornece ao respondente respostas prontas, com quadradinhos para ticar e a pesquisa qualitativa, que dá ao entrevistado a possibilidade de responder com suas próprias palavras. Para deixar claro, fiz um levantamento de dados com os próprios alunos. Perguntei por escrito: “se você for ao dentista e ele lhe disser que precisa extrair um dente, qual seria seu primeiro sentimento? ” E os alunos responderam tristeza, desânimo, medo, mal-estar, descrença no profissional etc.  Mas um deles foi taxativo: “ninguém arranca nenhum dente meu”. Minha ideia era buscar diferentes respostas diante de uma situação de perda pessoal – e achei. Mas o que comentar sobre a resposta desse aluno?

...se alguém me desafia e bota a mãe no meio, dou pernada a três por quatro e nem me despenteio (6).

A análise de dados também é difícil de discutir. Em uma pós-graduação de Medicina apresentei, como forma de pesquisa observacional, o British Doctors Study, um marco nesse campo, pois é visto como a primeira prova estatística forte da correlação entre o hábito de fumar e muitas doenças graves, inclusive o câncer de pulmão (7). Para fazer esse estudo (8), que data dos anos de 1950, dois pesquisadores ingleses enviaram questionários para todos os médicos do Reino Unido, com perguntas que visavam levantar os hábitos de fumar dos médicos, além de dados pessoais (sexo, idade, etc.). Foram enviados cerca de sessenta mil questionários e analisadas cerca de quarenta mil respostas. Os autores seguiram a sobrevivência dos médicos por meio de um registro geral. Apresentei para os alunos apenas os dados sobre câncer de pulmão – que são os mais conhecidos – porque não queria me estender demais sobre os testes estatísticos utilizados. Pois um aluno me perguntou se eu não percebia que os dados não tinham validade porque, segundo ele – em um estudo desse tipo – era preciso apresentar todas as causas de morte. Como responder com estatisquês a quem não sabe estatística?

E só mais um caso: em um seminário na USP, apresentei os principais delineamentos experimentais dos ensaios clínicos que comparam apenas dois grupos, que chamei de controle e tratado. Não havia tempo para mais. Reconheço que os slides eram um pouco infantis, considerando o alto nível intelectual dos doutores. Mas ao invés de diagnosticar essa falha, um médico me perguntou porque eu chamava um grupo de “tratado” quando se tratava de um trabalho experimental. Realmente, o NIH (National Institute of Health) propôs usar, nesses casos, o termo interventional group, mas não aboliu o termo treated group, muito em uso. Só consegui dizer que Estatística não é um ramo caudatário da Medicina (como também não e das ciências biológicas, das engenharias, das ciências agrárias, das ciências sociais). Estatística é uma ciência que anda com suas próprias pernas - tem teorias, técnicas,  paradigmas. E a terminologia de Estatística é usada em várias ciências; pode, portanto, ser genérica. Não convenci. Só recebi um mavioso “tudo bobagem”, comentário que não comprei.

 

Citações

 

1.        13 of the most stupid questions teachers have heard in the classroom.

https://www.joe.ie › life-style › 13-...

2.       Cora Coralina  Vintém de cobre: Meias confissões de Aninha. São Paulo: Global Editora, 1997. Trecho do poema Exaltação de Aninha (O Professor).

3.       Vieira, Sonia.  Como escrever uma tese. Atlas, 6ª ed. 2009.

4.       Descartes, René. O Discurso do Método. Martins Fontes, 2009.

5.       Vieira, Sonia.  Como elaborar um questionário. Atlas, 2009.

6.       Chico Buarque. Partido Alto.

7.       Di Cicco, M.E., Ragazzo, V.,Jacinto, T. . Mortality in relation to smoking: the British Doctors Study. Breathe (Sheff). 2016 Sep; 12(3): 275–276. doi: 10.1183/20734735.013416

8.      Doll R, Hill AB. Smoking and carcinoma of the lung; preliminary reportBr Med J 1950; 2: 739–748. [PMC free article] [PubMed[Google Scholar]